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sexta-feira, 25 de junho de 2004
Jomar Morais Souto
Ao lado de Vanildo Brito e Srgio de Castro Pinto, Jomar Morais Souto forma um trio de grandes poetas vivos da Paraiba que tiveram presena marcante a partir da dcada de 60. Integrante da Geraao 59, ele estreou em livro em 1961 com Pedra de espera. Publicou mais quatro livros: Itinerario lirico da cidade de Joao Pessoa (1962), sua obra mais re-editada. Fazenda de murm£rios (1980), Canto da capitania real de Nossa Senhora das Neves (1988) e Agrarianas e outros poemas escolhidos (1996), este £ltimo lanado pela Editora Ars Poetica, de Sao Paulo, e com distribuiao nacional.
Elegia para os sapatos ao sol um belissimo poema de 48 versos e, entre os de sua produao, um de meus favoritos. Uma estrofe:
"Eles sao sapatos, hoje.
Mas, ontem, foram bois mansos.
Tiveram amplos currais
e pastagens e arrebol.
Antes, levavam os carros.
Levam, hoje, os ps dos homens
da sombra triste para o sol".
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enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 23:16. comentarios[7]
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domingo, 13 de junho de 2004
DO SAL E DAS PEDRAS
Nunca fui arrecife.
Mas tenho o feeling das pedras
ao sabor do mar.
De Recife tao pouco sabia
de ruas, gentes e bares.
E ja ramos intimos,
mal pensava em chama-los.
Menino sem norte,
por sensaoes e paisagens,
conduziam-me Bandeira,
Cabral, Mota, Jomard.
(A vida me hipnotiza:
livros que ainda desfolho.
O Atlntico nao contm
o sal dos olhos).
Nunca fui arrecife.
O caminho das pedras,
porm, eu sei de cor.
enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 17:12. comentarios[6]
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quinta-feira, 3 de junho de 2004
 POETA ATENTO, OBRA INSONE
Lioes da insnia (Joao Pessoa: Manufatura, 2003), obra de estria do poeta e ensaista paraibano E. Ponce Leon, 60, se lida emblematicamente, possui um qu de levante contra a hibernaao que domina os criadores brasileiros. Neste sentido, a insnia que, originalmente, se define por incapacidade em conciliar o sono, aqui ato voluntario e sem acordo. Ou seria tambm razao da impossibilidade produzida pelo esgarado pulso pr˘prio das coisas, que acusa o momento certo da reaao, como pode sugerir o poema As altas cercas da insnia (p. 17): "Ovelhas de tao velhas/ja nao conseguem/ pular as cercas/cada vez mais/ altas da insnia".
A insnia reverenciada por Ponce Leon assume status de rebeldia contra Hypnos (o sono), filho de Nix (a noite) e irmao gmeo de Tnatos (a morte). Hypnos,
s vezes, tao traioeiro. Sao os mitos cortando tudo, duplo gume. Para nos livramos "desta velha moviola", concordamos com o poeta, "S˘ com um certeiro tiro/nas tmporas da mem˘ria". As lioes? Tomam-nas o autor e o leitor, no contato que o livro propicia.
Sao 69 paginas e meio cento de peas distribuidas em duas partes: Esboos noturnos e Estudos variados. Numa e noutra divis˘ria, vislumbramos um projeto definido tanto do ponto de vista tematico como quanto
pr˘pria convivncia com a linguagem potica, exposta em sua intervenao sobre o objeto tratado. Leitor voraz e arguto, Ponce acompanha e dialoga com a produao contempornea de que sua obra um claro reflexo. Dai, o interminavel elenco de afinidades que comea em Drummond, passa por Cabral e nao termina nunca.
Das tantas vozes e tons encontrados na obra, o humor se destaca por ser um engenho de que o poeta naturalmente lana mao para conduzir o leitor em assunto tao soturno. Um humor, entretanto, do fino ar de riso de quem percebe as coisas em suas nuances e em sua risivel tragicidade. Caso do poema Rastros (p. 32): "Morto o corpo,/a alma se evola/para o eterno vo.//Quando se esvai,/deixa um rastro/s˘ de ossos.//Faceis de enterrar, /duros de roer".
parte a desigualdade encontravel na resistncia do poeta em se livrar de poemas que dizem mais como discurso do que propriamente como objeto esttico, a coletnea Lioes da insnia contm substrato suficiente para dar ao leitor em vigilia a necessaria felicidade do encontro com a boa poesia.
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Publicado na Weblivros
Alguns poemas de E. Ponce Leon
REDE DE PESCA NOTURNA
A pesca com a rede
de dormir redundante.
Em paredes fincados,
armadores de anz˘is
armados, tambm pescam
a rede pelos punhos.
Embala-se a trama
que enreda e agora pesca
o que, por anfibio ser
em sono esta submerso:
como iscas desta pesca
o chamariz dos sonhos.
REDE DE NAVEGAAO NOTURNA
No cncavo instavel
resta rede, se embala
um sono que m˘bile,
no ar singra e flutua.
Este barco de porosa
trama, no cais do quarto
ancorado, nao aderna
em sonhos de travessia.
S˘ submerge sob o peso
quando um pesadelo abala,
e sopra
deriva insano
sua inerte calmaria.
PELE NOTURNA
Na rede de dormir
que se tece como teia
o homem se deixa
embalar como presa.
Pele de uso noturno
que ao embalar
se amolda ao corpo
para melhor embalsama-lo.
OPERA DOS QUINTAIS
Estes noturnos caes de guarda,
baritonos caes soturnos
sempre calam galos tenores.
Disputam desigualmente
o canto do soprano ausente.
Os galos do medo, emudecidos,
se aninham no silncio escuro
do contracanto dos quintais.
Nesta ˘pera dos quintais,
estes zelosos caes de guarda
preservam o sonoro e surdo
sonante sono de seus donos.
RASTROS
Morto o corpo,
a alma se evola
para o eterno vo.
Quando se esvai,
deixa um rastro
s˘ de ossos.
Faceis de enterrar,
duros de roer.
A FIBRA DO SUICIDA
A cada noite
o desfibrado suicida
sonha cortar,
fibra por fibra
os punhos da rede
at a queda exangue
no mais palido abismo.
A cada manha
surpreende-se pendente
na ponte pnsil
que armou, entre a morte
certa de cada noite
e as d£vidas do dia.
ETIMOLOGIA PARA CEGOS
Os cegos junto
s cataratas.
S˘ vem a nvoa
que lhes venda
o in£til olhar.
Apenas ouvem
em queda livre
a liquida paisagem.
Contato com E. Ponce Leon:
enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 10:52. comentarios[0]
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