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domingo, 29 de fevereiro de 2004
LEGADO MININO
Se tudo o que tinha lhe fora dado, emprestado, conquistado, ou tomado para si, pouco importava. Se era seu, como poderia ter sido de outro qualquer, era isso: pouco importava.
Valia, sim:
- das coisas, o tom e o som;
- cravar os dentes na casca das horas;
- sobraar d£vidas e certezas;
- mais humano do que nunca.
Do indito Guarda-chuvas esquecidos
enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 9:57. comentarios[1]
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domingo, 22 de fevereiro de 2004
POLITICA LITERARIA
"O poeta municipal/discute com o poeta estadual/qual deles capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal/tira ouro do nariz". O titulo pertence ao poema transcrito de Carlos Drummond de Andrade (Alguma poesia, 1930). Dedicado a Manuel Bandeira, uma irnica advertncia
s querelas regionais se deflagram vez ou outra em torno de icones conhecidos da cultura.
Nao o caso da discussao que envolve o poeta e astro pop paulistano Arnaldo Antunes depois de sua £ltima passagem pela Paraiba no ms passado lanando ET E TU, seu livro recente. At porque Lau Siqueira e Srgio de Castro Pinto, cada um com sua contribuiao, sao tambm dois nomes familiares e amados da midia cultural brasileira.
No £ltimo fim de semana, chegou-se a um ponto elevado com dois textos de maior flego (Srgio no Jornal da Paraiba, Lau na lista Fatos e Letras). Srgio faz uma filtragem extremada da preferncia pessoal no seu Os queridinhos da midia. Lau Siqueira, respondendo uma mensagem do professor Ivaldo Gomes, aponta preconceitos no texto de Srgio e tenta acenar para o respeito
pluralidade acima do gosto particular. Ponderaao o que n˘s, leitores, necessitamos para melhor absorao de questoes ainda carentes de debate.
Na revista eletrnica WSCOM, o poeta e jornalista Walter Galvao se antecipou e nos deu um artigo sobre o assunto que tardara a sofrer soluao de atualidade. No ar desde 22 de janeiro, Carta aberta a Carlos Aranha ou queremos o pao do nada areo o texto mais l£cido que ja li sobre o tema iniciado pelos dois poetas referidos. A contenda era: o que Antunes escreve ou nao poesia?
Galvao: "Mas s˘ podemos dizer que poesia, sim, o que o tita publica sob esta definiao. Desconhecer isso possivel. Ningum pode conhecer tudo. Mas negar a poesia onde ela vibra propositiva e clara tentar empobrecer o plano esttico, o planeta artistico". Ao fim, transcreve D£vida, ˘timo poema/letra de m£sica demonstrando, decididamente, a sua afirmaao.
Vejo como positiva as opinioes que se tm produzido
volta do assunto. Desde que nao chegue ao tom da exasperaao, a ataques pessoais, conversando a gente se entende, para lembrar o titulo de uma plaquete do pr˘prio Walter Galvao. O confronto de idias tem que ser sadio, portanto, gerando novos questionamentos, abalando certezas. A coluna Essas Coisas, de Carlos Aranha, foi, desde o inicio, espao destas intervenoes. No caso especifico, todos tm divergido com respeito m£tuo.
Em entrevista ao Correio das Artes (07/02/2004), Antunes se mostra pouco propenso a levar a srio o conflito dos pontos de vista estticos. Prefere cuidar de sua obra, suas validas pesquisas de significaoes da linguagem potica e nao ser incisivo nas suas afinidades eletivas. Na dele, mineiramente. Em momento algum, porm, tira ouro do nariz.
enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 10:09. comentarios[0]
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tera-feira, 10 de fevereiro de 2004
ARTE E POLITICA
O poeta russo futurista Vladimir Maiak˘vski (1893-1930) afirma que nao ha arte revolucionaria sem forma revolucionaria. A citaao deve vir a prop˘sito sempre que artistas pensam em se organizar, em reclamar por espao. Nao ha d£vida que a discussao levantada por um autor com a hist˘ria que ele teve deve servir de ordem do dia para todos n˘s que pensamos o fazer artistico com a intenao de acrescentar e nao de repetir. A reflexao me veio
baila quando sabado passado (7) recebemos uma delegaao de escritores pernambucanos na Associaao Paraibana de Imprensa para discutir politicas de melhor divulgaao dos autores nordestinos no cenario nacional.
Malgrado o apoio da imprensa local, n˘s estivemos em menor n£mero que eles, o que pareceu estranho. Ainda nos abate a indiferena a essa ordem de chamado ou somos superiores o bastante para nao nos preocuparmos com tais discussoes? Nao obstante, o esforo do editor do Correio das Artes e diretor de cultura da API em abraar este dialogo havera de ter repercussao. O marasmo cultural uma das maiores preocupaoes de Linaldo Guedes.
A Uniao Brasileira de Escritores, seao de Pernambuco, representada por seu presidente Vital Correia de Ara£jo, foi a responsavel pela mobilizaao de nossos vizinhos at aqui. As intervenoes foram predominantemente de cunho politico, ressaltando o preconceito do sul em relaao ao nordeste, dado que nunca deve deixar de ser registrado.
O grande diferencial para sermos reconhecidos, entretanto, devera se pautar na linha esttica. Desta forma, as propostas lanadas para novos encontros em outros estados, de deflagrarmos um movimento de escritores da regiao, de criaao de uma revista e outras reaoes positivas nunca devem perder de vista o lado complementar da questao que a arte em si. Sera atravs desse maior cartao de visitas, a originalidade de nossas obras, que definiremos nossa visibilidade.
Nao importa que tematicas ou preferncias de gnero literario se desenvolva, a validade de qualquer produao estara sem d£vida na marca pessoal que o autor deseja imprimir. Os epigonos sem direao pr˘pria, sejam eles cordelistas ou concretistas, sejam eles piauienses ou cariocas, com lugar cativo nos melhores suplementos literarios do mundo, nada tm a legar com suas gl˘rias momentneas.
Essa direao certamente encontrara eco nas presenas dos pernambucanos Lucila Nogueira, Delmo Montenegro e Marcia Maia e dos paraibanos Polibio Alves, Lau Siqueira, Amador Ribeiro Neto, Ed Porto, Fernando Moura, Linaldo Guedes e Andr Ricardo Aguiar, para citar alguns dos criadores que resolveram prestigiar o evento.
Voltando a Maiak˘vski, nada mais pertinente que transcrever estes versos em homenagem a Siergui Iessinin: " preciso/arrancar alegria/ao futuro". Para sermos notados, necessario, mais do que tudo, investir nesta perspectiva.
enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 17:17. comentarios[3]
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004
EXCEAO TEORIA
quando se vai amar
as teorias fora do quarto
como as sandalias
ficam esquecidas
porta do banheiro
senao molham-se ou sujam
quando se vai amar
as teorias sao o tapete
(O gozo ins˘lito, 1991)
enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 13:33. comentarios[2]
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tera-feira, 3 de fevereiro de 2004

UM POETA EM ASCENSAO
O poeta paraibano nascido no Rio Grande do Norte Jos Antnio Assunao estreou em livro com O cncer no pssego (Joao Pessoa: Idia, 1992) em evidente maturidade esttica. At entao, os seus poemas ja eram amplamente divulgados em suplementos literarios e antologias no mbito estadual. Tambm no plano local, era estudado por criticos e ensaistas. Ao publicar a primeira obra, com poemas produzidos entre 1981 e 1992, esse autor possuia, portanto, uma carreira literaria solidificada.
As peas de O cncer no pssego sao densas, produtos de uma formaao intelectual consistente, plenas de referncias mitol˘gicas e intertextuais de sua interaao com diversas fontes de cultura. Marcam-nas, ao mesmo tempo, a pesquisa da linguagem, a seleao vocabular para a definiao (evocando Ezra Pound) do corpus musical, imagtico e reflexivo do poema, patente, por exemplo, em O alibi (pag. 49 da fonte citada), que transcrevo: "Pudesse reter-te por um atimo/ de amor, e com os dardos/ desse amor roar-te o labio/(e o intimo colo, e o torso agil)/ferir-te de um gozo quase infarto.//Pudesse regar-te em outro talamo/Que nao esse (o da palavra)/Em que toda silaba falha/Face a tua ausncia irresgatavel.//Enfim, amar-te sem o halito/Da metafora, e revelar-te/(quanto na linguagem alibi)/tudo que teu corpo sabe,/ou saberia, nao fosses Arte".
A trapaa da Rosa (Joao Pessoa,Manufatura), seu segundo livro, veio
luz em 1998. A nova coletnea traz uma diferena no tocante
elaboraao, com poemas de leitura mais leves, acessiveis, sem perder, entretanto, a densidade referenciada como marca de sua expressao potica. A diversidade esta certamente na suavizaao de um certo preciosismo verbal (e tambm informativo, diria) presente na obra anterior. Sao trabalhos distintos, mas unos, porquanto partes de um mesmo projeto potico. Dele, o poema retrato, define, miticamente, o pr˘prio criador: "Esse espelho voraz em nada terminar,/esse cruel acervo de espelhos rotos/ teu secreto rosto, poeta. O resto silncio e dissipaao".
Jos Antnio Assunao, cuja obra foi objeto de dissertaao de mestrado (UFPB) de outro poeta bom paraibano, Antnio Morais de Carvalho, possui uma poesia que pelo seu grau de expressao se compara
dos melhores poetas contemporneos de lingua portuguesa. Estranhamente, pouco divulgado alm das fronteiras locais. Merece ha muito ser publicado por uma editora que lhe garanta melhor distribuiao e inserao na midia cultural.
O poeta nos acena agora com um conjunto indito de peas que compoem a obra A casa do ser. Morada de alicerces em assentamento que datam do inicio da convivncia com a palavra, esse livro de certa forma descreve, ontologicamente, um poeta em permanente ascensao.
enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 18:58. comentarios[3]
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domingo, 1 de fevereiro de 2004
A Sergui Iessinin,
que um dia acreditou:
"Com tanto azul, at morrer seria zero".
E, tempo seguinte, buscou o inumeravel,
entregando-se ao vermelho, depois cinza.
Todo nascer
era verdadeiramente novo.
Cabia a ti
a novidade de estar vivo.
Antnio Mariano
enviado por Antonio-Mariano - Antonio-Mariano as 21:07. comentarios[2]
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